Crónica de uma mãe em guarda partilhada
É quinta-feira, 12 de Agosto e estou no 4º dia, de um isolamento profilático em contexto de pandemia por COVID-19.
No meio da azáfama de procurar apartamentos, (só na segunda-feira foram 3), recebi um e-mail do ATL referindo que o JM deveria ser colocado de imediato em isolamento profilático, e eu, claro está, fiquei de castigo.
Começam-se todas as démarches necessárias: fazer o teste de PCR, abastecer o frigorífico para 10 dias, informar a Directora de Serviço para desmarcar doentes (em pleno mês de Agosto!!!), mas teve de ser.
Trata-se da burocracia, para a segurança social para a entidade patronal, ah e não esquecer de revisitar o despacho 3103-A/2020, de 9 de Março…. para ter tudo devidamente assegurado!
Enfim respiro…ou acho que respiro. Depois tem de se redesenhar todas as rotinas, que para o João já eram de uma certa anormalidade pandémica, para voltarmos a estar confinados, vários meses após o último Estado de Emergência.
Na segunda feira ainda consegui reunir por videoconferência, para a campanha eleitoral. Sim esqueci-me de dizer que faço parte de uma candidatura independente a uma Junta de Freguesia.
E agora…sento-me ao computador, para vos escrever o capítulo mais difícil da minha vida.
Como sabem divorciei-me a 13 de Abril.
Vou falar-vos da decisão da guarda parental.
Tenho mantido uma relação relativamente cordial com o pai do JM, mas com contornos que desejava fossem mais amigáveis.
Foi preciso passar a ideia ao João de que apesar dos pais já não serem namorados, continuavam amigos, a amá-lo, embora cada um no seu espaço. Não se deu oportunidade a mentiras, e muito menos mensagens contraditórias de que os pais, nem que imaginariamente, voltassem a estar juntos.
A decisão quando foi comunicada, foi irreversível.
Obviamente o João chorou, fez-me muitas perguntas. Fui respondendo a cada uma delas no seu tempo, em tom sensível e de forma completamente intuitiva.
Perguntou se podia contar aos amigos, e, normalizando a experiência disse-lhe que sim. Escolheu dois. Tranquilamente chegou a casa e referiu, que nenhum dos dois lhe tinha atribuído importância, o que para JM foi positivo.
Seguiu-se a fase mais complicada, que esperemos termine em breve.. a saída da nossa casa.
O João sempre se tomou por agricultor, usa um daqueles bonés da Feira de Cavalos da Golegã desde tenra idade e manuseia um trator a pedais, o seu John Deere.
Não queria de maneira nenhuma abandonar a casa, por lhe ser tão querido o jardim, onde noutro pico pandémico, semeou morangos e alfaces.
Mas tinha de ser. Entre os pais tinha sido acordado colocar a casa à venda, como em tantas outras famílias e não poderíamos adiar este problema.
O João tinha que perceber a realidade, que lhe foi devolvida ao longo do tempo.
O processo agilizou-se o mais rápido possível e desde cedo envolvi o João na procura de casa, desta vez um apartamento, mas que tentaria a todo o custo que tivesse um pequeno terraço ou jardim.
Como escreveu Mia Couto “ a casa não é onde vivemos”, mas onde em nós, ela habita!”
A casa foi prometida de venda na quarta semana de Julho.
Sairemos dentro de 60 dias.
Na realidade este confinamento, até calhou muito bem! Estamos a disfrutar do exterior da nossa casa, como nos velhos tempos e esta, era a despedida necessária.
É momento de vos dizer que, optei pela guarda partilhada, no que diz respeito à regulação do poder paternal.
A decisão foi muito refletida, junto da família, de experiências de outros divórcios (com desfechos positivos e negativos) e de alguma bibliografia que fui lendo sobre o assunto.
Dependeu, maioritariamente de duas ordens de razão:
- Ter a certeza que o João manteria contacto regular com o pai e com a mãe, evitando a alienação parental, porque o maior protagonista do divórcio era o nosso filho, devendo-se zelar pelo seu superior interesse emocional e físico;
- Até essa altura o pai nunca ter dado provas do seu contrário;
Optamos por fazer guarda semanal alternada, inicialmente em desmame na razão de 2 semanas para um, e depois semanalmente.
Mas este caminho, tem sido sinuoso…
Não existe uma resposta padronizada para se atuar nesta situação, mas tenho conseguido comunicar com o meu filho, e antecipar-me da melhor forma às suas angústias:
- Articulei com a professora para que acompanhasse mais de perto, o seu desenvolvimento emocional e cognitivo;
- Mantive-me disponível do ponto de vista emocional, indo busca-lo à escola mais cedo; escuta ativa;
- Mantivemos sempre que possível as rotinas como andar de bicicleta e ir à nossa praia fluvial;
- Quando o sentia mais ansioso, tentava fazer um puzzle ou outro jogo de tabuleiro;
- Mantive sempre que possível o “não”, a maravilhosa regra que para mim estrutura a nossa estabilidade emocional;
- Do ponto de vista prático, dividi todas as suas roupas e brinquedos entre a nossa casa e a do pai, para que o seu sentido de pertença se reproduzisse nos dois lados;
- Tentei sempre que o João não fosse mensageiro de recados entre os pais, comunicando muitas vezes por mensagem, quando o ruído se instalava entre os adultos.
Em relação a mim, treinei o conceito “ culpa zero”, aceitando que não sou perfeita como mãe, que vou errar muitas vezes ao longo do processo, sempre com a consciência, de que amo o meu filho acima de todas as coisas, o que para mim, é o bastante!
JM tem revelado uma extraordinária capacidade de adaptação ao divórcio, para o qual contribui o facto de ser amado, por ambos os pais.
Ficará certamente uma marca na sua memória, esperemos que maioritariamente positiva, mas isso vai depender do nosso comportamento enquanto adultos, da nossa razoabilidade e bom senso.
Só assim, se constrói uma narrativa em conjunto, um nome de família, que é assinado no dia em que se faz um filho.
Como cantava Simone de Oliveira, “quem faz um filho, fá-lo por gosto”.
E eu, parafraseando, António Lobo Antunes, aprendo a lidar comigo de outra forma.
Por agora, “eu e eu, estamos a dar-nos muito bem”, até que um dia, esperemos não muito longe, possa voltar a amar, incondicionalmente!
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