Divórcio em tempos de Covid
Estou a começar a escrever este texto, e é segunda feira de manhã.
Fui levar o meu filho a escola, buscar a empregada, destinar as refeições, enfim, organizar o plano semanal de família.
Agora, a família, somos só nós os dois…
Tenho tentado escrever, nos minutos que consigo só para mim, porque sou médica e em tempos de Pandemia, não falta o que atualizar.
Mas enfim, hoje é o meu dia de folga e vou deixar esta preguiça de lado, para vos contar a minha história.
O que vos queria dizer é que, … estou em processo de divórcio.
Tudo começou a 14 de Outubro, para não dizer que o casamento há muito que findara…
As idas e vindas da Conservatória, os advogados que representam as partes, as partilhas dos bens e a decisão da guarda partilhada, para mim tem sido a parte mais difícil.
No meu caso o processo está quase concluído, foi dissolvido o casamento na semana anterior e amanhã outra voltinha na Conservatória, mas desta vez para legitimar os detalhes da partilha dos bens.
Devo dizer, que tenho passado um mau bocado. No meio de tanto drama, concluo que apesar de ter uma família apoiante e uma rede de amigos muito sólida, optei por confidenciar com o meu Padre. Tem-me ajudado a desabafar aquilo que me vai na alma e que não podia e não posso contar, aos meus amigos mais íntimos e muito menos aos meus pais…não quero preocupá-los.
Dentro de mim, sei que estou crescida, que esperam isso de mim…o que não invalida, que por tantas vezes tenha revisto o colo da minha mãe, e ainda o quero!!
Questiono-me se todas as pessoas, passam pelo mesmo processo que eu, pelas mesmas emoções.
“há vários anos, que não correspondia às minhas expectativas e vivíamos nos últimos anos, uma situação de saturação e sofrimento psicológico, que tornara a nossa relação apenas suportável.”
Resumindo:
Tenho 44 anos, era casada há 12, com um homem que conheci durante 22 anos, e com quem vivi 17 anos. Temos um filho de 7 anos.
Em outubro de 2020, depois de talvez 2 anos de ameaça latente de divórcio (pelo meio, uma doença induzida pelo contraste da RMN e que me obrigou a uma paragem forçada), fui confrontada com uma situação de infidelidade. Percebi que no fundo, o divórcio, era a “única solução possível”, para um casamento moribundo.
Ele pediu-me o divórcio, compreendi que se encantou por outra pessoa e não o julgo!
No fundo há vários anos, que não correspondia às minhas expectativas e vivíamos nos últimos anos, uma situação de saturação e sofrimento psicológico, que tornara a nossa relação apenas suportável. Havia da minha parte, um claro esforço para manter o plano da família, por todos nós e acima de tudo pelo nosso filho…
A minha doença, não veio ajudar…a pandemia separou-nos ainda mais, e veio imprimir o golpe da misericórdia, num desfecho previsível, que foi o fim da nossa relação. A base de tão frágil que era, desmoronou!
Certo é que, quando um dos membros do casal se quer divorciar, já de nada serve manter essa relação!
Ele saiu de casa, passaram 6 meses, e do ponto de vista emocional fui-me aguentando…
Estou mais calma, agora. Porque tudo na vida, passa, absolutamente tudo, menos a morte!
Não pretendo que este meu texto vos deprima, pelo contrário, quero contextualiza-los em relação à forma que escolhi para sair da minha situação de crise pessoal.
Rodeei-me de amigos, contrariando todo o distanciamento físico que a pandemia obrigava, mantendo contacto por videoconferência com as minhas melhores amigas;
Recorri a um confidente, que só ele soube das coisas mais duras que se passaram neste divórcio!
Comecei a olhar para mim, como mulher, acho que pela primeira vez!
Confrontei-me com o excesso de peso que vinha acumulando nos vários anos, fruto de tanto zelo pela família e no fundo tanto desprezo por mim própria.
Perguntar-se-ão, mas é médica, não é? A resposta é sim, eu sabia que poderia ter feito melhor pela minha saúde, e no fundo pela minha auto-estima, mas deixei-me ficar…cada vez maior, cada vez mais doente.
Estou mais calma, agora. Porque tudo na vida, passa, absolutamente tudo, menos a morte!
Para isso recorri a uma nutricionista, que me ajudou a corrigir todos os factores de risco cardiovascular e obviamente a sentir-me mais empoderada, mais feminina!
Fiz uma sessão fotográfica, com a melhor das fotógrafas… Como poderia eu não me ter visto desta forma, foi mesmo necessário confrontar-me com esta fotografia para me sentir poderosa, sensual?!
Questiono-mo por onde teria andado a minha auto-estima aquele tempo todo.
Mas foi preciso ver, mostrar-me a mim própria. Autêntica, imóvel, ver-me como ser eu própria fosse outra e me visse de fora. Consegui fazê-lo por meio de uma sessão fotográfica, com a melhor das fotógrafas.
Como poderia eu nunca me ter visto desta forma? Confrontar-me: como me passou ao lado o meu poder, a minha própria sensualidade, a minha forma de ser? Por onde andou a minha autoestima todo este tempo?
“...Certo é que, o divórcio também pode ser o desbloquear de um processo de vida que estava estagnado, abrindo novas oportunidades à nossa vida”
Recorri também ao melhor advogado, que me defendeu e nunca me deixou perder a consciência, mesmo quando nos apetece pegar numa cadeira e atirar ao ex-marido!
O meu irmão, que tão bem representa a figura paterna, de costela algarvia cerrada, pediu-me que respondesse ao processo com dignidade. A ele, sim, penso que correspondi! E quando regressei ao trabalho, dei o meu melhor…não lhe falhei!
E claro, fiz alguns almoços com a melhor amiga, afinal diz-se que a melhor amiga é uma terapeuta com quem se pode beber um copo!
Lançamos as cartas de Tarot, para as quais não temos qualquer convicção científica. A última das quais, revelou no seu juízo final: “Vida Nova!”
Certo é que, o divórcio também pode ser o desbloquear de um processo de vida que estava estagnado, abrindo novas oportunidades à nossa vida, voltar a brilhar, e isso nem sempre será negativo, e no meu caso, não foi.
Parafraseando Gabriel Garcia Marquez, na sua obra” amor em tempos de cólera” – “só me doi morrer se não for por amor”.
E eu, vou morrer a tentar, a tentar, o sonho de todos nós, que é o “Amor”.
Na realidade, alguém disse que há 2 coisas importantes nesta vida”, amar, ser amado e nunca morrermos depois dos nossos filhos!”.
Lembremo-nos sempre, que melhor que o destino, é e vai ser sempre, a viagem.
Esta é a história da minha VIAGEM.
O meu nome é Maria…
Carta de navegação para recomeços
"Amor em tempos de COVID"
JORNAL PÚBLICO, OUTUBRO DE 2020
Num artigo assinado por Natalia Faria, podia ler-se:
“No terceiro trimestre de 2020 houve 3862 divórcios, mais 235 do que no mesmo período de 2019. É um aumento ainda tímido, mas que marca uma inversão de tendência e que poderá aumentar atendendo a que muitos consultórios de advogados dão conta de um crescente número de pedidos de orientação sobre como fazer em relação aos bens e aos filhos num cenário de divórcio. Para muitos, o confinamento marcou um ponto de ruptura no casamento”
Agência Reuters, Janeiro de 2021
“O Segundo trimestre de 2020, marcado pelo primeiro confinamento em Portugal, foi aquele que registou o menor número de divórcios, enquanto o terceiro, pós-confinamento, foi o que contabilizou mais separações. Também nos matrimónios estes foram os piores seis meses do ano.”
Dada a casuística, o que podemos concluir? E o que fazer para prevenir?
O Dr. Fernando Medeiros Paiva, Psiquiatra do Porto, na sua apresentação no Hospital Lusíadas, subordinado ao tema: “Amor em tempos Covid-19, solidão e afectos em suspenso”, sugere um conjunto de regras de comunicação a considerar pelos casais em confinamento para a manutenção da sanidade, conjugal e mental:
Dar espaço ao outro; passar períodos sozinho, para relaxar e ter tempo a sós, caminhar, fechar a porta do quarto para obter privacidade;
Aumentar a cordialidade -definindo tempos para a discussão e depois para a resolução de problemas;
Evitar ser crítico; respondendo à ansiedade do outro, com sensibilidade.
Reconhecer e validar os pontos fortes do parceiro; ex. quando está em teletrabalho e a acumular funções de cuidador dos filhos, agradecendo por executar essas tarefas…
Comunicar, de preferência, na primeira pessoa. Tentar não enveredar pelo caminho da crítica, dizendo o que sente em vez de acusar: “Sinto-me mal quando vejo pratos sujos na banca, podes ajudar-me quando isso acontece?” – este é o tipo de comunicação a privilegiar e, sabe-se, os casais que partilham equilibradamente as tarefas domésticas fazem mais sexo.
Apesar das várias restrições impostas pela pandemia, em relação à vida sexual ( se nas doenças sexualmente transmissíveis podemos controlar com o preservativo), é um facto provado que um beijo pode ser o cartão de visita de uma Unidade de Cuidados Intensivos, especialmente se se trata de um casal que vive em dois agregados diferentes ou têm profissão de risco e o outro está confinado em teletrabalho.
“Mas quem ama, deve continuar a amar a e ser amado, das mais variadas formas que existem”.
Segundo o especialista, um estudo levado a cabo em Itália, concluiu haver diminuição do desejo, por receio de ser infectado e de não ter tanta privacidade.
Por sua vez, nem todos vivem da mesma maneira a sexualidade na pandemia. Se por um lado, os solteiros parecem dar-se bem sozinhos, a gozar da sua privacidade, focados na sua carreira ou o desejo em si próprios, esse processo pode também ser assustador e solitário. Podem assumir que não querem morrer sozinhos….e desesperadamente procurar ex-namorados, ou videoencontros que podem ser complicados, ou mesmo decidir ter um filho.
Não esquecer, que o risco e o desconhecido, aumentam o desejo, e este por sua vez, desinibe. Se para as Doenças sexualmente transmissíveis ( DST), temos a protecção de um preservativo, para a infecção pelo Sars-cov-2 ( vulgo infecção por COVID-19), o contagio pode dar-se apenas através de um beijo!
O especialista sugere ainda, como estratégia de suplantar esta situação:
Conhecer outra pessoa do lado do ecrã (videoconferência associada ao romance, numa mistura possível de zoom com Tinder) e beber um copo deste lado, mais tempo para conhecer o outro, aumentando o potencial, para continuar o encontro pós -pandemia….
Mas nem tudo é negativo para os casais na Pandemia e no confinamento:
Muitos casais juntaram-se mais cedo, outros houve que mantiveram a relação de forma resiliente, enquanto outros efectivamente entraram em ruptura.
Uns casais voltaram a aproximaram-se e a reflectir sobre a vida e a consolidar a relação, enquanto outros, quando deparados com situação de teletrabalho, desemprego repentino, filhos em telescola, foram empurrados para a sua ruptura, o verdadeiro “ apocalipse now”.
O divórcio pode no entanto, ser encarado como o “ o desencalhar” de um processo de vida que estava estagnado, abrindo novas oportunidades à nossa vida. Neste caso, consideramos que será um processo construtivo, positivo.
Diz Dr. Medeiros Paiva na apresentação, em jeito de reflexão: “ tomara que o amor seja a próxima Pandemia”!!
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