Todos os dias são meus

"... a minha biografia, Não há nada mais simples. Tem só duas datas—a da minha nascença e a da minha morte. Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.
Alberto Caeiro
Fernando Pessoa

Esta é uma história, um testemunho na primeira pessoa sobre o meu tempo, no presente. Um conto sem limites e sem fim à vista sobre o pensamento lógico e racional, numa mente que a si própria conta histórias, em esforço para dar lugar às emoções.

Um caminho que não existe fora de mim, mas que terá, mais dia menos dia, uma face visível. Vai oscilando indeciso num baloiço que ora dá um impulso em direção à consciência, ora recua ao subconsciente. Nessa aventura de tensão, ausento-me ao exterior enquanto me penso mais, me sinto mais e, muito mais tarde, me entendo mais.   

Os dias

23 de agosto

Sigo pelo caminho da dúvida e na maior parte das vezes não faço o que me é pedido. Estou no meio de uma semana difícil de agosto e nada se afigura nítido ainda. Uma tendinite grave. A dor que torna impossível o trabalho, um cursor no ecrã marca a espera por ação. A ansiedade, o apelo dos de casa, a viagem de férias que aguarda, o tempo em família cortado pelo trabalho fora de um de nós, as malas para dois destinos, as roupas e as dores, sempre as dores, dos dias e das noites, noites de vigília no meu corpo de sempre, que agora tenho dificuldade em reconhecer em face de uma menopausa que se anunciou mal.

Uma voz de fundo, cá dentro grita no meio da noite: tens de parar, parar, não pensar em nada, respirar apenas. Não consigo pensar. Esqueço-me das palavras de todos os dias. Falam comigo e não consigo perceber o que me dizem. Estou a desligar? Que se passa? De súbito enche-me o vazio, em surdina, as vozes à volta distanciam-se, o cérebro silencia tudo com uma linha contínua suspensa que flutua no nada. Não consigo perceber o que se passa. Sinto apenas que não será mau permanecer assim durante algum tempo porque o que tenho é sobretudo um imenso cansaço.

24 de agosto

Hoje estou centrada em ouvir a conversa das árvores, deduzir alguma mensagem subliminar no movimento das folhas – este quadro emoldurado pela janela do fundo da sala, de portadas abertas. Os enormes plátanos acompanham-me durante os meus dias com uma música que ouço há décadas e me traz de volta ao meu espaço interior. Ainda que o esforço para entender a conversa das árvores tenha sido em vão, entro em conversa comigo e encontro conforto e calma nesta serenidade alimentada pelo rumor dos plátanos.

30 de agosto

As férias enfim chegadas, sentada no jardim, tento perceber se por aqui as árvores conversam melhor. Aqui o som chega de vozes impercetíveis da casa ao lado e das árvores. A relva malnutrida amarelada pela seca não tira a calma a este lugar. Trouxe um café, sentei-me no alpendre e mantive o foco nas palmeiras, no sussurro do pinheiro manso com os ramos erguidos para o céu que hoje é de um azul tímido para tanto verão. O muro de cedros faz-me acreditar por instantes que este lugar é só meu. Duas rosas esquecidas pela estação fazem figuração ao fundo do relvado e vergam-se à evidência de um fim próximo. Pudera eu ter sempre a calma deste instante, sem o ter como único.

2 de setembro

Sento-me na praia vazia, ocupo-a como o faz este nevoeiro quente, a chuva intermitente e as nuvens de ameaças. Restaurantes operam hoje em milagroso silêncio e o areal parece recuperar a sua linha primeira na paisagem, sem urbanidade, sem turistas e sem serviços. Na sua condição antiga este lugar é tão livre e despojado de signos sociais como qualquer outro e permite-me, agora como sempre, que me ligue à terra.

Entre banhos e períodos de diálogo aberto com o teto da casa, recuperação e descanso, começo a avançar para a zona desconhecida. Não cedo ao cliché “sair da zona de conforto”, primeiro porque o sinto como uma expressão que atingiu o limite decente de número de utilizações e, depois, porque eu não venho de um lugar de conforto, mas de um estado que se explicar apenas pelo medo.

4 de setembro - o diário da menopausa

Foi hoje publicada no suplemento de domingo uma reportagem especial sobre a menopausa. Aceitei, antes de vir de férias, fazer uma entrevista em grupo para o jornal, com chamada de capa, com foto, com partilha nas redes… enfim, assumi idade e condição, por uma “menocausa” e por uma comunidade.

A menopausa é desde sempre ignorada por conveniências e boas maneiras. Fosse isto coisa de homens e talvez, só talvez, tudo estivesse mais adiantado e soubéssemos lidar melhor com uma fase que afeta metade da humanidade.

Enquanto pareço dar a cara por uma causa, o que fica em mim é um combate interno, mais uma vez, ao medo, ao complexo, à insegurança. Pareceu-me um bom começo para perder o medo de aparecer porque não é sobre mim, é sobre todas as mulheres e eu ali sou apenas mais uma. Ser isto, ser e parecer o meu número, a minha idade. Olho para a foto como se nem fosse eu e acabo por partilhar nas minhas redes para conquistar o medo.

Esta fase que ainda agora se anuncia em que toco o que poderá ser, com sorte, a segunda metade do meu tempo, estica-se na intenção de fazer melhor comigo. Sossegar o passado, viver no presente e tocar de vez em quando, nem que por breves instantes, a plenitude. Durante este caminho de estar presente, em silêncio ou em palavras escritas, entre o esquecimento e a memória, entre o trauma e a resolução, todos os dias são meus!

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