Coragem
Saíam de Santo António de Arenilha, todas as semanas, barcos carregados de homens e mulheres, com destino a Casablanca.
Maktub, o destino estava traçado… pelo menos para Xico Parte Paredes.
Homem alto, de olhos azuis como o profundo do mar, pai de três, Francisco o mais velho, José e o Benjamin, de nome António.
A mulher, Maria de Jesus, minha avó, ficara em casa na costura, enquanto o marido se aventurava no Mediterrâneo, em procura de melhor sorte.
Mas dela não padeceu.
Escrevo-vos hoje para falar de coragem.
A crise pandémica também foi uma oportunidade, pelo menos para mim.
Conheci um senhor Manuel de 96 anos, refugiado durante o estado de emergência em Vila Real de Santo António (Santo António de Arenilha). Tinha sido capataz de Xico, meu avô.
Depois da passagem do Marquês de Pombal pela terra, Arenilha perdeu o seu nome. O Marquês tinha mandado incendiar as barracas dos pescadores em Monte Gordo e provocou um êxodo artificial de pescadores para Santo António de Arenilha, formando a actual Vila Real de Santo António. Na sua praça principal pode ver-se hoje o ladrilhado branco e preto, igual ao terreiro do Paço, símbolo da majestade do reinado de D. José.
Desenhou assim um triângulo estratégico entre o Forte de Cacela Velha, o Castelo de Castro Marim e Vila Real de Santo António, formando barreira física e impedindo a entrada dos infiéis do Norte de África.
Para que se saiba, os Távora não foram as suas únicas baixas….
Foi então que Manuel me segredou algo: “o seu avô Parte Paredes cometeu um crime de honra em Casablanca…Ficou detido e, quando regressou, eu fui seu capataz. “
Desse crime, nada foi dito, falado, desvendado, mas sabe-se que foi de honra… e coragem…
Quem, nos dias de hoje, teria coragem para entrar na autoestrada em sentido contrário… quem poria a sua vida em risco em virtude dos seus valores?
O meu avô teve… CORAGEM!
Xico Parte Paredes contraiu tuberculose na prisão em Casablanca e regressou a Vila Real de Santo António.
Aí, Manuel enfatizou, “o seu avozinho tinha tuberculose e nós partilhávamos com ele a água nas latas de atum ( oferenda generosa da família Ramirez, por lá radicada)… em momento algum queríamos que ficasse ofendido, porque era um homem de valor, de honra, tinha princípios!”
Daí que se me levantasse a questão: “quem se colocaria em risco de uma infecção, à data sem tratamento eficaz, para não ferir a honra de um pedreiro que cometeu um crime de honra?!!!
Não foram homens, nem mulheres, eram gente… gente de coragem, que estava à altura daquilo que acontece!
O meu avô faleceu de tuberculose e ficou enterrado em São Brás de Alportel, no interior de Tavira.
E apesar de nunca o ter conhecido, era capaz de jurar que, às vezes, consigo ouvir o profundo azul dos seus olhos.
Escrito em memória de Navalny


