Nikita, nas terras raras de Zelensky
É sexta-feira de manhã e vou fazer uma vídeo-consulta. Do outro lado do ecrã, Nikita (chamemos-lhe assim), apresenta-se dentro de um carro, num local rodeado de floresta, para que não possa ser identificada.
Ainda não tem 30 anos, e é uma médica portuguesa, contratada pelo exército ucraniano. Está na linha da frente, e alistou-se para ajudar na guerra da Ucrânia. Durante a consulta, encontrava-se em Kiev e aguardava indicação para se deslocar para Donetsk, no Donbass. Pergunto-lhe o que está a fazer ali e explica-me que desde o início do conflito, se condoeu com o sofrimento dos idosos, e deslocou-se para a Ucrânia para lhes dar apoio.
É minha colega e pede-me ajuda.
Nikita tem de fazer plantões ininterruptos de 5 dias. A sua colega de pelotão, uma médica americana, medicou-a, mas Nikita agora não conseguia descansar. Avaliamos em conjunto, a medicação a que pudesse aceder em Kiev. Pergunto-lhe quando poderá vir à consulta, de forma presencial e explica-me que só poderá fazê-lo no Natal. Despedi-me, desejando que nada de mal lhe acontecesse: “falamos no Natal, disse-lhe então”.
Passaram os meses, chegou o Natal e não voltei a ver Nikita. Na minha mente perguntava-me por onde andava Nikita, teria a situação sequer sido real? Duvidava dentro de mim, que alguém tão mais nova, com a fragilidade física de uma mulher, pudesse ter tido tal acto de coragem e abnegação. Mas engane-se o senhor leitor, pois voltei a ver Nikita, há 2 semanas atrás. Dava uma entrevista no Jornal da Noite de Domingo, numa estação de televisão. Nikita, estava ali à minha frente, Nikita era real! Era médica alistada no exército Ucraniano e acima de tudo encontrava-se de saúde. A jornalista interpelava-a sobre o que a preocupava no dia-a -dia. Respondia que a sua maior preocupação era chegar ao final do dia e não esquecer de ligar à mãe para a tranquilizar…A entrevista terminou com o mesmo cenário da videoconsulta, rodeada de floresta verde. O cenário no entanto tinha mudado, trazia agora pela mão, um novo amor, também ele soldado na guerra. Nikita tinha ido para a Guerra, mas também tinha encontrado a paz ! Como diria Dostóiévski, para encontrar a paz, às vezes é necessário ir à guerra, não no sentido bélico, niilista, claro está, mas no sentido do diálogo, pois, sem diálogo não se constrói a paz! Que nós, homens e mulheres, nunca esqueçamos que podemos ser Nikita.
Slava Nikita ! Slava Zelensky!


