Carta de Amor
Tirei da caixa das memórias duas das tuas cartas. Estavamos em Setembro de 1995.
Escrevias: “ nessa noite, chorei como uma criança, eu não queria ter boas notas, nem ganhar um carro, nem tão pouco alguma riqueza, fosse qual fosse, só te queria conhecer…fiz loucuras do género de ir a Benidorm por tua causa. Todas as noites pedia a Deus que melhorasses da tua enigmática doença, todos os dias que tinhas novidades para dar aos teus colegas, esses mesmos vinham a correr contar-me. Porque é que não ía directamente perguntar-te? O medo era muito, medo de te rires na minha cara, e medo de me tornar no centro das atenções, porque afinal tu andavas rodeada dos teus amigos, uma muralha que ninguém sabia superar. As aulas acabaram e cada um seguiu o seu caminho, no entanto sempre que vejo alguém parecido contigo, o sangue sobe-me á cabeça, e fico capaz de rebentar, depois vejo que não és tu e espalho-me em lembranças de outros tempos que já não são os mesmos.”
Pois bem Eduardo, no final desse ano, estive hospitalizada, e aí se confirmou o nome da minha enigmática doença, e então fiquei liberta da muralha que me rodeava…talvez a minha doença exigisse demasiado para uns tenros dezassete anos…
Mas o tempo passou e nós encontramo-nos em Outubro desse ano, para confirmar aquilo de que já desconfiavas. Ninguém pode apaixonar-se assim por alguém que não conhece.
Escrevias numa segunda carta:
“Ainda há poucas horas falei contigo, e já tenho imensa vontade de o voltar a fazer…É muito o que tenho para te dizer, mas são coisas tão pessoais que a dificuldade é muita, por isso vou falar daquilo que me faz pensar em ti. O que sinto por ti, está cá dentro bem guardado, parece que os sentimentos não querem ser expostos, não quero pensar nisso quanto mais falar.
Aquilo que senti por ti, sei-o muito bem: era platónico, impossível, diziam-me, mas era algo tão intenso que podia mover montanhas”. “Nas aulas preenchia-as com brincadeiras de crianças, a escrever o teu nome, a sonhar com uma possível vida a dois e como ela seria, a pensar em ti como o poeta na sua musa… Por tudo isto digo-te que te devia ter falado há mais tempo. Sei que te teria feito a pessoa mais feliz deste mundo, até ao fim dos nossos dias. Mas agora as coisas não são tão fáceis, os sentimentos estão perdidos à espera que algo, ou alguém os recupere. E eu rezo, para que apareça a pessoa a quem eu possa entregar tal difícil tarefa, a tarefa de juntar todas as “estrelas” perdidas num universo tão vasto como é a mente humana.
Que tu sejas tão feliz quanto eu mereço ser, são os meus desejos, mas para já temos uma vida para viver. Até que as nossas linhas se encontrem, aqui fica um grande beijo do teu para sempre, Eduardo”.
Tinhas razão… foi a última vez que as nossas linhas se cruzaram. Mas penso em ti e se me estiveres a ouvir: estou bem, estou bem!


