A Noite Estrelada

Tinha deixado o pai a descansar no hospital na noite anterior. A milagrosa toma do midazolam, tinha transformado o desassossego  em  calma, abrindo espaço ao  silêncio.

No céu, a noite, já apresentava estrelas em vez de balões, o São João partira, desta vez dando lugar ao S.Pedro dos Pescadores.

Em qualquer outra noite, o pai diria: amanhã vai estar bom tempo, não vês as estrelas?

Nessa manhã, pelas 7 horas, tocou o despertador. Segui para o trabalho, mas não piquei o dedo e  segui para a enfermaria. O pai estava lá, ainda sossegado… mas cá dentro havia um sinal de alerta: “ vai partir hoje…”

Veio a equipa de paliativos; ,estava eu debruçada sobre a cama, segurando a  sua mão, ouvindo os fados de que tanto gostava. Falaram comigo e explicaram que o pai, apesar de sedado, mantinha os sentidos preservados.

Deu-se então lugar à despedida.

Primeiro, a irmã mais velha e os sobrinhos… Depois a mãe a mana Bibi.

Os netos mais novos, ligaram e  falaram com o avô…”Amanhã levo-te conquilhas”, disse o Chico — ele, que é a cara do avô, com aquele cabelo negro e os olhos do azul profundo do mar.

Depois ficamos nós os dois, em silêncio. Ainda falei com o meu sobrinho, “Quem dera poder levar o velho do mar  ao heliporto, para que visse o mar e as estrelas”.

Partiu pouco depois das 20h, depois da despedida do filho mais velho, que foi para ele mais do que um pai. Nunca tinha visto o meu irmão chorar….

A Bibi ainda entrou e disse “ portaste-te muito bem, nosso herói”. E eu sentada, no cadeirão, a imaginá-lo no tecto da enfermaria, a olhar para nós…e a dizer, “ Que palermas, não sabem que estou aqui?!”

Esta foi a despedida necessária, para nós…o tempo para apaziguar o coração e iniciar o luto.

O meu filho João, decidiu, comparecer no funeral para prestar homenagem. Tinha de levar cravos, pois para ele não havia liberdade sem paz e não haveria paz sem liberdade.

O Caixão entrou na terra e disse-lhe que era  o homem mais rico do mundo, pois tinha partido em liberdade, tal como nasceu. 

Espero sinceramente  que durante a sua viagem, ainda consiga ver a noite estrelada…

A verdade é que a morte, também foi um dia bonito de viver!

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