A CONTADORA DE HISTÓRIAS
A única forma de adiar a morte é escrever histórias.
Quando pensava na finitude da vida, interrogava-me sobre o que a podia prolongar. Quem se lembraria de mim? Obra poética? Não, melhor do que isso… quem pode prolongar a vida são os filhos.
A melhor história que escrevi foi o meu filho João, por isso me tornei contadora de histórias, para que possa ser lembrada por todos os séculos.
João Maria, recebeu o seu nome do meu avô João da Ponte e este, depois do seu pai, João Manuel. A família do meu avô materno tinha apelido “vinagreira”, oriunda de uma indústria madeireira da Taboeira, no distrito de Aveiro.
O meu avô João Maria, homem de estatura média, calvo, era conhecido pelos seus traços arianos. Impulsivo…não trazia para casa, coisas por resolver! João da Ponte era o “Justo”.
Vivia na casa do Registo, casa antiga, estilo senhorial, brasonada, de pedra marcada pelo tempo, no Cais de Quebrantões. Do outro lado do Rio Douro, no seu alto, ficavam as instalações da PIDE, daí que, de quando em vez, se encontrasse um corpo a flutuar e alguém dizia, foi a PIDE!!!
A Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE), era símbolo da Ditadura de Salazar. Uma Ditatura, claro está, é um sistema político, em que perante uma ameaça real ou imaginária do povo se rebelar, as forças militares ou paramilitares se fizessem substituir ao Estado.
Importante, no dia de hoje, de eleições legislativas, lembrar o marco de 50 anos de democracia.
Não quero que o senhor leitor, se prenda nestes aspetos politizados do texto, porque o que vos quero contar, é que na casa do meu avô, João da Ponte, havia uma passagem secreta que dava continuidade a uma escarpa na Serra do Pilar.
Foi na casa do Registo, que entraram e se registaram as embarcações inglesas para combater os franceses nas segundas invasões napoleónicas.
De não esquecer que na base de qualquer revolução, existem os princípios da Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade, fraternidade.
Não nos esqueçamos, portanto, dos valores sem os quais não podemos viver.
Pois a única forma de adiar a morte é contar histórias!